estivesse aqui, ele rasgaria sua garganta - disse
Jon. Ainda não era bem verdade, mas viria a ser.
- Nesse caso, é melhor que fique por perto - disse o anão.
Inclinou a cabeça grande demais rara um lado e observou Jon
com seus olhos desiguais. - Chamo-me Tyrion Lannister.
- Eu sei - disse Jon. Ergueu-se. Em pé, era mais alto que o
anão. Mas isto o fazia sentir-se estranho.
- E você é o bastardo de Ned Stark, não é?
Jon sentiu-se atravessado por uma sensação de frio. Apertou
os lábios e não disse nada.
- Eu o ofendi? - disse Lannister. - Perdão. Os anões não têm
de ter tato. Gerações de bobos Tiriegados conquistaram para
mim o direito de me vestir mal e de dizer qualquer maldita
coisa que me venha à cabeça - ele sorriu. - Mas você é o
bastardo.
-Lorde Eddard Stark é meu pai - admitiu Jon rigidamente.
Lannister estudou-lhe o rosto.
- Sim - disse. - Consigo ver. Você tem em si mais do Norte que
seus irmãos.
- Meios-irmãos - Jon corrigiu. O comentário do anão o
agradara, mas tentou não mostrar.
- Deixe-me lhe dar um conselho, bastardo - disse Lannister. -
Nunca se esqueça de quem é, porque é certo que o mundo não
se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser
nunca a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela
nunca poderá ser usada para magoá-lo.
Jon não estava com disposição de ouvir conselhos de
ninguém.
- Que sabe você de ser um bastardo?
- Todos os anões são bastardos aos olhos dos pais.
- Você é filho legítimo de Lannister.
- Ah, sou? - respondeu o anão, sarcástico. - Vá dizer isso ao
senhor meu pai. Minha mãe morreu ao dar-me à luz, e ele
nunca teve certeza.
- Nem sequer sei quem foi minha mãe - disse Jon.
- Uma mulher qualquer, sem dúvida. A maior parte delas é
isso - dirigiu a Jon um sorriso tristonho. - Lembre-se disto,
rapaz. Todos os anões serão bastardos, mas nem todos os
bastardos precisam ser anões - e, com aquelas palavras, virou
as costas e regressou vagarosamente ao banquete, assobiando
uma canção. Quando abriu a porta, a luz vinda de dentro
atirou sua sombra bem definida pelo pátio afora e, só por um
momento, Tyrion Lannister ergueu-se alto como um rei.

Catelyn

Entre todos os quartos da Torre Grande de Winterfell, os
aposentos de Catelyn eram os mais freqüentes. Ela raramente
tinha de acender uma fogueira. O castelo tinha sido
construído sobre nascentes naturais de água quente, e as
águas escaldantes corriam pelas suas paredes e quartos como
sangue pelo corpo de um homem, afastando o frio dos salões
de pedra, enchendo os jardins de vidro com um calor úmido,
impedindo o congelamento da terra. Lagoas ao ar livre
fumegavam noite e dia numa dúzia de pequenos pátios. Isso,
no verão, era coisa pouca; no inverno, era a diferença entre a
vida e a morte.
O banho de Catelyn era sempre quente e cheio de vapor, e
suas paredes, mornas ao toque. O calor lembrava-lhe
Correrrio, dias ao sol com Lysa e Edmure, mas Ned nunca
conseguira se habituar. Os Stark eram feitos para o frio, dizia-
lhe, e ela ria e respondia que neste caso tinham certamente
construído seu castelo no lugar errado.
Por isso, quando terminaram, Ned rolou e saltou para fora da
cama, como já fizera mil vezes antes. Atravessou o quarto,
afastou as pesadas tapeçarias e abriu as altas e estreitas
janelas uma a uma, deixando entrar o ar da noite.
O vento rodopiou à sua volta quando parou para olhar a
escuridão, nu e de mãos vazias. Catelyn puxou as peles até o
queixo e o observou. Parecia de certo modo menor e mais
vulnerável, como o jovem com quem se casara no septo de
Correrrio havia quinze longos anos. Seus rins ainda doíam da
urgência do amor. Era uma dor boa. Conseguia sentir a
semente dele dentro de si. Rezou para que pudesse aí brotar.
Tinham-se passado três anos desde Rickon. Ela não era velha
demais. Podia lhe dar outro filho.
- Vou dizer-lhe que não - disse Ned quando se voltou de novo
para ela. Tinha os olhos assombrados por fantasmas e a voz
espessa de dúvidas.
Catelyn sentou-se na cama.
- Não pode. Não deve.
- Meus deveres estão aqui no Norte. Não tenho nenhum
desejo de ser a Mão de Robert.
- Ele não o compreenderá. E agora um rei, e os reis não são
como os outros homens. Se se recusar a servi-lo, ele quererá
saber por que, e mais cedo ou mais tarde começará a suspeitar
de que se opõe a ele. Não vê o perigo em que nos colocaria?
Ned abanou a cabeça, recusando-se a acreditar.
- Robert nunca me faria mal, nem a nenhum dos meus.
Éramos mais próximos que irmãos. Ele me adora. Se lhe
disser que não, ele rugirá, praguejará e estrondeará, e uma
semana mais tarde estaremos juntos a rir do assunto. Conheço
o homem!
- Conhece o homem - disse ela. - O rei é um estranho para
você - Catelyn recordava o lobo gigante morto na neve, com o
chifre quebrado profundamente alojado na garganta. Tinha
de fazê-lo compreender. - O orgulho é tudo para um rei, meu
senhor. Robert percorreu toda esta distância para vê-lo, para
lhe trazer estas grandes honrarias, não pode atirá-las à cara.
- Honrarias? - Ned soltou uma gargalhada amarga.
- Aos se